© Regina Chamon - Medicina Integrativa.

  • Dra Regina Chamon

Medicina Integrativa - princípios para a prática

Parece algo novo esse nome Medicina Integrativa. Para mim, olhando os princípios dessa abordagem, ela nada mais é do que o cuidado com a saúde que eu imaginava aprender quando decidi fazer faculdade de Medicina. Mas hoje a Medicina se especializou tanto que as vezes esquecemos que existe uma pessoa doente e tratamos apenas a doença que está dentro daquela pessoa.


Bem, a Medicina Integrativa pretende exatamente retomar este cuidado essencial da pessoal, estimulando que cada um de nós se torne responsável pela sua saúde.


Apesar de bastante abrangente e com um olhar personalizado para cada indivíduo, existem algumas linhas que norteiam a prática da Medicina Integrativa e elas estão descritas em 8 princípios:





1- Intervenções efetivas que sejam mais naturais e menos invasivas podem ser utilizadas sempre que possível

Sempre que possível, utilizamos intervenções efetivas que sejam mais naturais e menos invasivas. Quanta coisa legal tem nessa frase! Vamos “dissecá-la”: sempre que POSSÍVEL, quer dizer que algumas vezes não conseguimos utilizar terapêuticas mais naturais. Por exemplo: se você está com uma crise de ciático, a gente não vai optar por massagem ou uma técnica de relaxamento. Vamos usar um remédio de dor potente, junto com um anti-inflamatório para resolver logo a sua dor. Mas se você repetidamente tem dor na região baixa das costas e percebe que isso piora quando você está mais ansioso, aí sim vamos sugerir Yoga, atividade física e técnicas de relaxamento. A outra parte da frase diz que usamos terapêuticas mais naturais e menos invasivas e que sejam EFETIVAS. Isto quer dizer que vamos olhar o que já foi feito de pesquisa para o uso da terapia e se ela realmente funciona. Meditação, por exemplo, funciona bem para as dores de cabeça relacionadas a tensão da musculatura da região do pescoço, mas não funciona se a sua dor de cabeça for causa da por um aneurisma cerebral!!!


2- Uso apropriado tanto das terapias convencionais quanto das complementares facilitam a resposta inata de cura do organismo

Parece um tanto místico e algo de outro mundo falar sobre resposta inata de cura do organismo.

Mas vou te dar um exemplo bem simples de como isso acontece: dias atrás eu estava brincando com uma cachorrinha super dócil, a Vida. Sem querer ela arranhou minha perna. Sangrou pra caramba. Lavei e deixei ali quietinho. Um dia depois já tinha uma casquinha e a casquinha foi endurecendo, coçou, até que começou a sair e uma pele bem rosinha apareceu por baixo. Assim foi, até que cicatrizou. Isso é o corpo curando sozinho uma ferida na pele - resposta de cura que é própria (inata) do organismo de qualquer ser vivo.

Quando pensamos em usar as terapias complementares o que sabemos hoje é que muitas delas regulam a resposta de estresse no nosso corpo e tornam o ambiente dentro dele “menos inflamado” por agirem em um conjunto de genes que comandam a liberação de uma substância chamada NFkB. Assim, o ambiente do corpo fica mais adequado para uma série de remédios terem um efeito melhor. Essa combinação permite ao corpo ter suas ações mais efetivas neste processo inato de cura e o resultado tanto para tratar sintomas quanto para prevenir doenças é muito melhor.


3- Boa medicina é baseada em boa ciência. A Medicina Integrativa é orientada pela investigação científica e aberta a novos paradigmas.

Ou seja: para que uma terapia seja incluída como possibilidade de uso ela precisa ser avaliada se realmente é eficaz e o mais importante de tudo: se não traz riscos à saúde.

Então, se algo não foi avaliado pela ciência e estamos ainda “aprendendo” como funciona, a gente vai ter MUITO critério para indicar. Ainda mais se for algo invasivo - que entra dentro do seu corpo: algo que você toma ou algo que injeta no sangue.

Os estudos científicos na área das terapias complementares estão cada vez melhores, utilizando métodos mais precisos e que nos mostrem se aqueles achados ocorreram ao acaso ou são mesmo pela terapia. Mas ainda há um caminho longo para termos dados robustos. Portanto, cabe a cada profissional ter responsabilidade não só no uso ou recomendação da terapia, mas também responsabilidade de  explicar o que há e o que não há de evidência e o quão segura é aquela prática. A MI é aberta a novos paradigmas pois se dispõe a estudar as novas terapias e as novas maneiras de pensar a saúde.


4- Todos os fatores que influenciam a saúde, bem-estar e doença são levados em consideração, incluindo mente, espírito, comunidade, bem como o corpo

“A minha médica prescreveu para eu ser feliz, então não me incomode!” Acompanho há tempos um rapaz e sempre dou risada na consulta quando ele me conta esta história. Ele diz que depois da quimioterapia, e já se foram uns cinco anos, toda vez que alguém começa a chateá-lo ele diz que a minha recomendação era que ele fosse feliz. Essa brincadeira entre nós começou pois mesmo com a doença do corpo respondendo muito bem ao tratamento e com poucos efeitos colaterais, ele continuava agoniado. O que o mantinha “doente” era a preocupação com o trabalho, o dinheiro, se ia poder ir para a Itália aquele ano ainda. Minha função de cuidadora só se concretizou quando entendi que o tirava o bem-estar dele naquele momento não era o “tratamento médico” e começamos, juntos, a buscar estratégias para lidar com esses outros aspectos.


5- A Medicina Integrativa não rejeita a medicina convencional nem aceita a medicina alternativa indiscriminadamente.

Santa penicilina! Essa foi uma "droga" que realmente fez com que a gente vivesse mais, assim como a quimioterapia e uma série de cirurgias também fazem. Erra quem pensa que Medicina Integrativa é negar o uso de remédios e usar apenas ervas e terapias holísticas. Mas também erra quem pensa que, só porque damos preferências a tratamentos menos invasivos, a gente prescrever qualquer coisa diferentona sem muito critério e sem avaliar com um pensamento orientado pela ciência se aquilo de fato funciona e é bastante seguro.

Ou seja, na prática da Medicina Integrativa buscamos aliar o que há de melhor tanto na medicina convencional, quanto nas Medicinas Tradicionais, e na modificação de estilo de vida e terapias complementares, ressaltando a importância de que cada pessoa seja autônoma e responsável pelo seu próprio cuidado.


6- Os profissionais devem ser exemplo dos princípios e estarem comprometidos com o conhecimento, investigação interna e o desenvolvimento de si mesmo

Cuidar da gente mesmo é uma questão de ética profissional quando pensamos na área da saúde. O profissional esgotado fica desatento, impaciente, com pouco espaço emocional para acolher a dor (física ou emocional) do outro. Por isso, dentro da filosofia da Medicina Integrativa, “os profissionais devem ser exemplo dos princípios e estarem comprometidos com o conhecimento, investigação interna e o desenvolvimento de si mesmo”

Exercitar a autonomia de se cuidar permite que a gente esteja íntegro e inteiro ao cuidar do outro.


7- Ao longo do conceito do tratamento, conceitos mais amplos como promoção de saúde e prevenção de doenças são primordiais

Médico sabe muito sobre doença. É verdade. Mas será que a gente se preocupa em saber sobre saúde? Uma das coisas que me fascina na Medicina Integrativa é o fato de que ela não visa apenas TRATAR DOENÇAS ou resolver um sintoma. A visão é muito mais ampla e envolve PREVENIR DOENÇAS, através de modificações do estilo de vida e PROMOVER SAÚDE, ou seja, trazer a atenção para que a gente se cuide e tenha atitudes que façam a nossa saúde ficar cada vez melhor.


8- Profissional de saúde e o paciente são parceiros no cuidado

Onde foi que eu me perdi? Vira e mexe ouço isso no consultório, a angústia de não saber como a gente se desconectou da gente mesmo e aquela inquietação de como fazer para se reconectar.

Bem, não adianta o médico falar o que a gente tem que fazer. Cuidar de uma doença, ou cultivar a saúde, é algo que a gente faz com a gente mesmo, dia a dia, sozinho.

Por isso, na Medicina Integrativa, não há uma relação de hierarquia, em que o médico diz o que é bom e o paciente faz aquilo. O que existe é uma relação de parceira em que, juntos, profissional da saúde e paciente criam um caminho que faça sentido para o paciente e ele percorre com o apoio do médico


Aqui no site da Universidade do Arizona você pode ver a versão original destes princípios

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