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  • Foto do escritorDra Regina Chamon

Autocuidado - um projeto individual ou coletivo?



Alguns textos me inspiram a refletir sobre o cuidado. Esse que você vai ler abaixo é uma tradução livre de algo que li em um site que parece não existir mais (www.theselfcareproject.org) e que transformei em episódio do Podcast Desestresse. Ao final do texto estão informações sobre a autora do texto original


The Self Care Project - Filosofia


No início de cada ano resolvo usar fio dental nos dentes com mais regularidade. Mas com dois empregos, uma família e um sentimento quase constante de urgência sobre uma miríade de questões sociais e ambientais, meu objetivo parece sempre ilusório. Fiz vários modelos gráficos de uso do fio dental e deixei caixinhas de fio dental por todo o lugar como lembretes. Mas no início do dia estou com pressa e no final do dia estou muito cansado. O problema não é tanto o descaso com a higiene dental, mas um ritmo de vida insustentável. E nisso eu sei que não estou sozinho. Minha resolução de uso do fio dental simboliza uma tentativa mais ampla de se comprometer com melhores práticas de autocuidado, em meio a uma vida movimentada voltada para a mudança social. Com o aumento das mudanças climáticas, o aprofundamento da desigualdade e uma erosão estratégica da democracia, este pode parecer um momento estranho para sugerir que a gente desacelere e cuide melhor de nossa própria saúde física e emocional. Mas e se isso for exatamente o que precisamos? não apenas porque é bom para nós como indivíduos, mas porque realmente torna todos os nossos esforços mais fortes e poderosos? A ideia de autocuidado borbulha de vez em quando em círculos comunitários e ativistas. Não é um assunto fácil; frequentemente associado à autoindulgência, pode ser visto como um luxo que pode esperar até a próxima crise. E, no entanto, continua a surgir. Por que?


Para responder a essa pergunta - que é fundamental para muito do que amamos, desde uma costa marinha livre de petróleo até uma forte rede de segurança social - aqui está o que aprendi (ou estou tentando aprender) sobre autocuidado:


1. O autocuidado é uma necessidade e parte integrante do nosso trabalho coletivo por um mundo mais justo. Nossos sistemas sociais e econômicos nos dizem que o autocuidado é um luxo, reservado para aqueles com privilégios excessivos. Mas igualdade não significa apenas acesso igualitário a serviços tangíveis, moradia, assistência médica e alimentação saudável, mas também oportunidades iguais e adequadas para mergulhar na beleza da vida e do amor. Se estou lutando por esse direito, devo vivê-lo também. Reivindicar o direito de ser digno de cuidado é um desafio importante para o sistema dominante. Como disse a autora e ativista Audre Lorde, "cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato de guerra política". Precisamos reformular o autocuidado para que não seja um luxo e um privilégio reservado apenas para alguns. Em vez disso, o autocuidado pode ser uma ferramenta para desafiar histórias dominantes de como é o sucesso e a felicidade, construindo novos modelos comunitários de saúde, felicidade e uma boa vida.


2. Nossa linguagem em torno do autocuidado é importante e imperfeita. O termo autocuidado invoca respostas variadas, desde revirar os olhos até medos silenciosos de egoísmo, fraqueza e indulgência. E assim, falar sobre autocuidado pode parecer um campo minado, especialmente em ambientes onde somos rápidos em acusar a nós mesmos, e uns aos outros, de não sermos radicais o suficiente, ou comprometidos o suficiente, ou duros o suficiente. Ao longo dos anos, as pessoas usaram vários termos para contornar essa bagagem linguística: sustentabilidade pessoal, cuidado comunitário, bem-estar, administração de traumas. Os rótulos que usamos são importantes, mas mais importante é o trabalho de redefinir uma vida boa e viver essa definição à medida que nos envolvemos com o trabalho sistêmico de torná-la acessível a todos.


3. Autocuidado é um ato de equilíbrio. Estamos enfrentando o aprofundamento da desigualdade e o enfraquecimento das estruturas democráticas em meio a uma grande crise climática. Para um número cada vez maior de pessoas, isso não é uma abstração, mas uma experiência diária. É um momento urgente, um tipo de momento em que todos colocam as mãos na massa. Como podemos trazer todas essas mãos? Não queimando como heróis e mártires pela causa, mas modelando lideranças engajadas e vivas, e construindo movimentos motivados por urgência sem sucumbir ao ciclo vicioso do "nunca é suficiente"


4. Autocuidado não acontece sozinho. Essa interpretação autocentrada e individualista do autocuidado que queremos instintivamente rejeitar não é apenas politicamente problemática, é também ineficaz. Somos criaturas interdependentes. Posso ser a melhor fonte do que preciso em uma determinada situação, mas quase sempre sou incapaz de atender a essa necessidade sozinho. E mesmo quando for capaz de satisfazer minhas próprias necessidades, não poderei fazê-lo todas as vezes. A verdade é que precisamos uns dos outros: autocuidado bom e sustentável significa pedir ajuda e construir redes de apoio que nos acompanham a longo prazo.


5. No autocuidado nem tudo muda em um momento milagroso. Melhores hábitos de autocuidado não aparecem instantaneamente depois de assistir uma palestra ou ler um artigo. Eles nem mesmo tomam forma completa em um workshop ou retiro particularmente transformador. Dizer que precisamos fazer não faz acontecer. Saber que precisamos fazer isso não é suficiente. Autocuidado é uma coisa do dia a dia. Significa mudar hábitos e horários e mudar crenças profundamente arraigadas sobre autoestima e identidade.

Está levando mais tempo e prática do que eu gostaria. E para mim, não tem seguido uma progressão linear. Houve momentos em que encontrei um bom equilíbrio e então algo não planejado aconteceu e todos os meus bons hábitos evaporaram. Mas com a prática ficou mais fácil e mais natural, e novamente com a prática, cada vez que sou jogado fora do meu equilíbrio, leva menos tempo para me recuperar. Geralmente.


6. Autocuidado não precisa custar muito dinheiro. No que diz respeito ao autocuidado, como em muitos outros assuntos, é verdade que há muito a ser aprendido e muitos professores excelentes, com os quais vale a pena ler e aprender. Mas, no final das contas, tenha isso em mente: já sabemos tanto quanto precisamos. Sim, há momentos em que é totalmente aconselhável buscar apoio e aconselhamento de um profissional treinado. Já passei por alguns desses momentos. E há professores, cursos e livros com os quais vale a pena aprender. Eu experimentei alguns desses também. Mas quando minha situação econômica limitou essas opções às vezes caras, descobri que os melhores investimentos foram o tempo para reconhecer o que já sei que preciso e uma rede de pessoas me apoiando.


7. O autocuidado precisa estar alinhado com seus valores. Ou seja, não vai acontecer por meio de terapia de massa, garrafas de vinho sofisticadas, junk food ou supressão de emoções. Um bom banho de espuma pode trazer algum prazer, mas o autocuidado a longo prazo não se trata de luxo e consumismo. Não se trata de fuga. Ao tomar decisões sobre autocuidado, achei útil me perguntar: "Isso realmente me nutre e me sustenta?" Essa questão ainda não me levou a uma meditação vigorosa e a um estilo de vida ascético. Mas significou encontrar oportunidades para me conectar à gratidão, alegria, amor e um senso de propósito. Às vezes, significa mais caminhadas, cochilos ou danças, um clube do livro, ou tempo sozinho, ou tempo com a família e amigos. Na linguagem da ecofeminista e filósofa Joanna Macy, autocuidado muitas vezes me ajudou a voltar à vida.


8. Autocuidado é um desafio sistêmico. Existem inúmeras forças concorrentes que dificultam o verdadeiro autocuidado. Pressões econômicas, expectativas familiares e até mesmo as estruturas de nossas organizações e movimentos sociais podem, intencionalmente ou não, trabalhar contra nossos esforços para construir uma vida sustentável e resiliente.


Se você acha difícil, você não está sozinho. Eu também acho difícil. Desenvolver novos hábitos de autocuidado requer priorizar, refletir honestamente e navegar coletivamente. O sistema pode estar trabalhando contra você, mas um grande número de pessoas está trabalhando COM você, cada um com seus próprios dons e barreiras. E se quisermos chegar lá, será juntos.


9. Autocuidado não é a totalidade do nosso trabalho por aqui. Tampouco deve se tornar um foco único. Existem questões sistêmicas importantes a serem enfrentadas em conjunto. Mas na multiplicidade de questões interligadas que procuramos abordar, é um fio a ser tecido.


Decidirei novamente usar fio dental com mais frequência, mas não será o foco do meu ano. Estou empolgado com os oleodutos e inspirado por #idlenomore, B.C. tem eleição em maio e vou me casar em junho. Será mais um ano agitado. Mas farei outro modelo gráfico de uso do fio dental e trabalharei para me lembrar do seguinte: sua vida é digna de alegria e prazer, assim como todas as outras.


Assim como você lutaria tanto para conseguir isso para os outros, você também merece essa experiência para si mesmo. Nosso bem estar está intimamente ligado. E assim, o autocuidado é uma necessidade. E é parte integrante do nosso trabalho coletivo por um mundo mais justo.


Este texto faz parte do The Self Care Project e foi escrito por Christine Boyle que é organizadora comunitária e estrategista de comunicação no Coast Salish Territories. Você pode conhecer mais do seu trabalho no Instagram @christineeboyle ou no https://linktr.ee/christineeboyle





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