• Dra Regina Chamon

Lidando com as emoções em tempos difíceis

Essas últimas semanas eu tenho me sentido em um caldeirão de emoções. Perdi a conta dos compromissos apagados e remarcados, até que deixei de remarcar.  Em um domingo eu estava sentada com meu namorado assistindo televisão e de repente comecei a chorar incontrolavelmente. Dava até aquelas engasgadinhas, igual criança sentida, sabe? Fiquei pensando que tantas coisas mudaram no meu trabalho nas últimas semanas e senti muito medo de meus pais adoecerem, minha madrinha, minha avó. Veio uma enxurrada de pensamentos: não quero perdê-los, tudo vai virar um caos nessa quarentena, e se eu perder meu emprego e se não tiver dinheiro para pagar minhas contas? E se eu ficar doente? Quem vai cuidar da minha família. Mais choro, coração disparado, uma angústia no meu peito. Então fiz um exercício que aprendi ao meditar e isso me ajudou a lidar melhor com a situação, então acho que pode te ajudar também!


Vou tentar descrever em um passo a passo.


1- Reconheça que existem duas partes separadas para uma situação desafiadora: primeiro, é o próprio problema, a questão em si. No meu caso era o fato de estarmos vivendo em uma pandemia, cercados de incertezas em várias esferas da nossa vida. Segundo, é sua reação ao problema, que no meu caso foi começara a chorar loucamente, pensar coisas muito negativas e as mudanças no meu corpo. Tente separar em sua mente o que é a situação e o que é a sua reação a esta situação.


2- Reconheça e identifique o que você está sentindo e pensando em reação ao problema. Nesta situação eu senti medo de perder pessoas queridas, medo de ficar sem emprego e medo de adoecer. Perceba como está o seu corpo. No episódio anterior falamos um pouco sobre quais os sinais de estresse no corpo e nas emoções. Tensão muscular, ansiedade, coração disparado, respiração curta, aperto no peito ou na bica do estômago. Perceba se estas mudanças estão presentes no seu corpo.


3- Procure perceber o sentimento ou reação que você está tendo, sem ficar classificando. Não precisa ficar pensando se é bom ou ruim, se deveria ou não deveria sentir isso. Não tente explicar ou fazer desaparecer. Apenas reconheça que essa emoção está presente, respire e sente-se com a emoção. Tente fazer amizade com essa emoção. Observe o que acontece com o sentimento ao aceitá-lo e permitir que ele esteja aí com você. Trazer atenção às suas emoções influenciará como elas são resolvidas.


4- Tente tomar consciência da (s) fonte (s) de sua reação. Sua reação vem do medo, culpa, perda, vergonha? Será que houve alguma situação lá atrás que fez com você tivesse essa reação agora?Quais são os pensamentos que passam pela sua mente? Será que eles são precisos mesmo ou será que a sua cabeça está inventando, contando uma história mais trágica que o real para a situação? É completamente normal a gente contar histórias para nós mesmos. E perceba se seus sentimentos estão afetando a sua capacidade de ver o problema claramente. Ou será que eles estão te levando a tomar atitudes que, além de não resolver o problema vão piorar as coisas? 

5- Agora tente separar o problema de suas emoções sobre o problema. Você pode ver seu estado emocional como separado do problema? Se você conseguir ver claramente a situação, poderá resolvê-la com mais eficiência. Eu, por exemplo, chorei incontrolavelmente, fiquei pensando que o mundo não era justo e que nada disto deveria estar acontecendo. Essa foi a minha reação ao fato de que eu estava com medo pelas mudanças inesperadas que aconteceram nos últimos dias.

 

6- Mas sabe, é difícil a gente conseguir fazer essa separação entre emoção e reação. É preciso treinar. Então, se suas emoções estão influenciando sua capacidade de ver o problema claramente, talvez você precise voltar para as etapas anteriores até que os sentimentos se acalmem. Respirar profundamente e em um ritmo mais lento pode ajudar muito a esclarecer estas questões. Um banho morno, um chá, ou qualquer coisa que você goste de fazer para relaxar.


7- Quando você considerar que está vendo o problema de forma bem nítida, com pouca influência das suas emoções, veja se é possível dar uma fatiada nesse problema, dividindo em partes gerenciáveis. Crie um plano de ação. No meu caso eu olhei quais eram os hospitais próximos que eu poderia ir se ficasse doente, me programei para ligar para meu irmão e combinar que ele assumiria os cuidados com a saúde da família se eu ficasse doente, entrei no meu extrato bancário e fiz uma estimativa das minhas reservas financeiras caso eu ficasse sem trabalho e quais gastos eu poderia reduzir. Me programei para ligar todos os dias para os meus pais, madrinha e avó.


Se não houver nada que você possa fazer para resolver o problema, realmente não faça nada. Fazer nada às vezes é uma resposta tão apropriada quanto fazer alguma coisa. Eu, por exemplo, não tenho como saber se meu emprego estará mantido daqui a um mês ou não, então não adianta eu ficar pensando incessantemente sobre isso. 


8- Depois de ter feito o plano de ação (ou não ação) perceba como estão suas emoções. Isso ajudou a acalmá-las? Veja também se há outras coisas que podem para ajudar a acalmar suas emoções - caminhar, cozinhar, ler ou outras atividades de que goste?


9- Quando você se sentir calmo e centrado, considere seu plano de ação (ou não ação) novamente. Neste momento a gente pode decidir se vamos seguir com ele ou revisá-lo. Essa maneira de lidar com uma situação tira a gente de uma condição reativa, que é dirigida pela resposta de estresse muito exacerbada, e permite que a parte mais racional do cérebro assuma o comando, o que permite acalmar a mente, promover a resposta de relaxamento que faz com que o corpo funcione melhor, fortalece seu espírito e permite chegar a alguma forma de paz e resolução.




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